Game Over – Uma crônica para meninos perdidos

Puxa a cadeira, aí, Bródi. Se estivéssemos no nordeste, eu te diria: se avexe não, cabra!

A vida tem dessas coisas mesmo… às vezes é madrasta! Mas.. putz, colega. Não estamos no nordeste. Nesse sertão de dentro, onde o cerrado se perde além das vistas, o que posso te dizer, mesmo, é paráfrase da terra. Ainda que moderninha. Tipo… dançou. Queria rir da tua cara, não, mano… Mas, sendo muito sincera… paráfrase. Dançaste.

Toma. Engole umas talagadas desse conhaque. Esquenta. Faz frio. Que bom que você é inteligente. Entende os trocadilhos. Mas, vamos combinar… a vida te rezou o terço pra mais de metro! Mulher é bicho esquisito, fi! Nunca ouviu Tia Rita Lee?!

Ou será possível que devo ser EU a te dizer que bicho que sangra todo mês e não morre, só pode ser esquisito… ?! A parte com o Demo é por tua conta. Engole a porra do conhaque e desengole o choro. Você não entendeu porque não quis…

Estica esse olho de cachorro molhado pra lá…! Tá me tirando, rapá?! Tô falando dela não…! Se fosse pra falar dela, falava com ela, em outro lugar. Você sabe: a garota jamais choraria em botequim de esquina, entornando São João da Barra em copo descartável…

Mesmo que jamais tenha se apertado em trocar pneu de carro, carregar tijolos ou rever contratos, meio mundo sabe. E você, incluso: a moça é poderosa. Cheia de manias, toda dengosa… Ah essas rimas! Jeito Felinde, não é? Adoro essas sinapses…!

Talvez exista uma natureza masculina, dessas que se repassam através dos genes e podem ser apercebidas na forma de comportamentos inatos. Sendo assim, vá lá. Vai ver é mesmo coisa do gênero não entender direito o que se passa nas rasuras dos sentimentos… Essa é a boa notícia. Você não está sozinho. Milhares de outros machos, “meninos homens que vestem azul”, se enrolam quando o papo se desenrola em torno do verbo “sentir”. Foda, mano. Eu sei.

A má notícia… é que ela também sabe. E, para piorar ainda mais a sua situação: aqueles olhos enxergam sua alma, leem seu corpo, processam seus gestos… E enquanto você não sabe, ou pensa que sabe, e sai por aí se volatizando em pontos de fuga, pernas e bundas abertas…

Ela te saca. Ela te decifra. E te desnuda: menino, medroso, inseguro, imaturo, ciumento, possessivo, manipulador. Sim, ela te sabe imperfeito. Ou você achou que ela te ofereceria os peitos, os afagos, as carícias, os beijos, por te considerar um príncipe de contos, por te ver em cavalo alado, espada em riste a salvá-la de dragões imaginários?!

Bom, agora não adiante chorar o leite derramado. Ela vai rir de outras piadas, vai afagar outros cabelos, vai despejar charme pra outro imbecil. Todos os pequenos diminutivos, íntimos e tolos, não serão mais seus. Suas mãos não estarão mais entre as dela, seus músculos não vão relaxar sob o toque dos seus dedos.

Sorrisos, mimos, denguinhos, ciuminhos, cuidados… Toda aquela submissão erótica que se lhe permite a fantasia… Não será mais dedicada a você. Ela vai ser a gueixa de outro. A parceira de outro. A cúmplice de outro. A amiga de outro. A mulher… de outro.

Sinto muito, colega. A vida não é sucessão de acasos. A vida é sucessão de escolhas. Você fez as suas. E ela… submissamente, eroticamente, as respeitou. Ergueu-se, saiu do seu lado, deixou o espaço que você exigia vago… e caminhou. Daquele jeito felinde… tão dela.

Narizinho em pé, boquinha pintada de vermelho, olhos ainda mais amendoados pelo traço do delineador. Altiva, sorriso franco no rosto, deslizando em cima do próprio salto, vestida de preto, porque é chic e porque é a cor do mistério. Só para te lembrar que você nunca vai sabê-la integralmente, embora ela te reconheça em cada um dos seus tons.

Tome outro conhaque, Bródi. Acho que você vai precisar.

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